quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Soma

Tem vez que o casamento acaba e, e não mas, o amor não. Pois andemos juntos e, e não mas, separados.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Sombra em luz

Ouça bem meus conselhos, são deles que careço. Observe meus inimigos, neles eu me evito. Quando eu latir e maltratar e te acusar de ser humano, não pese mais que um espelho. E se eu martelar minhas verdades, ache graça, como é frágil o irredutível.

Enxergar-me parte de um olhar oblíquo, ora míope narcisista, por vezes hipermétrope escapista, quando não delirante, de um astigmatismo poderoso. E de enxergar-te é maior o desafio, pois é preciso que eu te perdoe ao me ver errante, em ti refletido.

Sem teu olhar não me vejo, a te olhar me reconheço demais. Aprender estar contigo é aprender estar comigo, em paz. Andarmos juntos para entender o subjetivo, a solidão. Que verdades são cometas perdidos e nós universos famintos por um maior sentido, que não há.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

R.I.P.

Que a morte seja vida, a perda uma conquista, e uma lembrança não mais que uma medalha. Que as boas e más memórias sejam planas e serenas como os retratos, o profundo se consuma apenas dos de carne e osso, e o amanhã o único desejado.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Navegar é preciso

Se nossas tempestades nos deixarem mareados,
Que a bonança venha de nossa transformação.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dos paradoxos

Tenho compreendido que as obviedades são sabedorias muito sutis, na verdade. Precisam ser vivenciadas para que sejam apreendidas em suas essências. E vivenciar é estar atento ao que se vive, pois o céu é do infinito e a estrela cadente é de um instante. Basta um piscar de olhos para que se perca um entendimento. Crescer também é desvendar o óbvio.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Tempo rei

Quando eu era garoto, brincava com a vídeo-filmadora do meu pai. Virava a tarde editando as imagens coletadas na câmera para uma fita no vídeo-cassete. Daí colocava a fita editada na filmadora e juntava a montagem final com a trilha sonora, repassadas a uma terceira fita. E assim fazia meus vídeo-clipes.

Perdi todos, menos um, que fiz para um festival do colégio. Fase de auto-aceitação, trabalhada quase diariamente no doutor Cícero. Tenho carinho por ele, me apresentou Buñuel, e a análise funcionou muito bem. Tanto que depois, no último ano colegial, larguei o divã e pintei o cabelo de vermelho. A série ficou furiosa. A juventude é cruel e as diferenças temidas. Mas não retornei ao consultório e só voltei ao castanho quando o vermelho virou laranja.

Venci o festival. Vencemos, pois houve um empate: dois ganhadores. E ninguém perdeu, já que só havia dois vídeos inscritos. O juri eram a Laís Bodansky e o marido. Me premiaram com a soma de uns duzentos reais, que eu devo ter gasto em cinema, baseado e cigarro. E comprei um álbum dos Cranberries para o Maurício.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Vertigem

O fim é o começo

Meu menino querido, para sempre perdido, está a caminho de casa. Tenho certeza pois não há dúvida agora. E certezas eu só tinha enquanto menino. Minha alma sorri materna à espera do filho, costurando o silêncio em alegria incontida.

Celebro calado esse retorno, solene, em respeito à toda dor e destruição que seu sumiço causou, mas que com a volta ganham sentido. Foi uma longa jornada e nada foi em vão. Meus olhos se voltam ao centro da alma e aguardam a entrada. Sem ansiedade.

Lá no centro já desponta o brilho, que vem do lugar onde eu me esqueci. É ele que se aproxima. Sua aura emana toda sabedoria que nas escolas desaprendi e um novo tempo se anuncia. Um homem nascerá de nosso encontro.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A calhar

O que o vento não levou...
Mario Quintana

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo,
um carinho no momento preciso,
o folhear de um livro de poemas,
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ciúme

O rapaz coloca uma coroa de alho na porta da frente, em defesa do amante. Há um vampiro rondando a casa, uma ameaça. Uma mordida e o amado vira mais um morto-vivo. O outro sorri, esse tipo de coisa não existe. E além do mais, por que haveria de ser eu o mordido, se o sangue também corre em tuas veias?

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Vaca Amarela

Foi a vez da "Vaca Amarela": um, dois, três, e os quatro se calaram. Em acontecimento extraordinário, o calar-se não foi de verbo imperativo, não foi pausa de dor ou de mágoa, luto, ou ausência aflita por palavras. Enfim surpresos, descobrimos o prazer do silêncio, desfrutado sem tensão ou culpa, consentido num acordo de cavalheiros.

Fim do estado de atenção. A interação, sempre constrangida e cobrada, agora se fez da não interação. Livres da obrigação de estarmos a todo o tempo presentes, experimentamos apenas estar. Saboreio o movimento, as copas das árvores, fiações, postes, o sábado e o sol de fim de tarde que quase me aquece. O momento é mágico, não haverá o primeiro a falar.

O pai vai sem pressa, errante. Bom estarmos juntos, dividindo em paz nossas solidões. Capitão e tripulantes, seguimos felizes, numa expectativa ilusória de nunca mais (ter que) chegar, estar para sempre a caminho, todos a lugar nenhum, mas juntos, cúmplices. E em silêncio. Então Beatriz se lembrou de outra brincadeira e acabou comendo toda a bosta da vaca.