quinta-feira, 20 de junho de 2013

Reflexões pós-atos.

Enquanto os moleques do MPL estão comemorando a conquista da redução da tarifa, eu e muitos outros burgueses da geração Y estamos surpresos. Surpresos porque sabemos que lutar por causas sociais é lutar contra moinhos de vento. E a verdade é que não acreditamos nas causas sociais. Para nós o direito público não existe, o mundo só funciona na esfera privada (as privadas, por exemplo, existem apenas em nossos banheiros, como tem lembrado o Laerte). E ainda, se nem as nossas próprias privações nos movem, que dirá a dos outros. 

Eu e muitos outros burgueses da geração Y aprendemos nas escolas (e nos sorrisos vitoriosos dos nossos pais) que a grande conquista foi o mundo neoliberal. Aqui a opressão é um devaneio comunista, o Estado é fraco, o poder está dissolvido nas multinacionais e todos nós temos, mais que o direito de consumo, a liberdade para conquistá-lo. Não precisamos fazer mais que garantir o nosso: mantendo o dinheiro entrando na conta, tudo estará resolvido. Acreditamos nesses ensinamentos porque comprovamos todos eles nos percursos dos nossos caminhos.

Temos orgulho de dizer que, de fato, o suór dos nossos pais nos garantiu o melhor do mundo privado. Fomos à Europa e lá, ou em qualquer outro estabelecimento comercial, não encontramos opressão alguma (Na verdade, antes das consequências dos atos do MPL, não entendíamos o que isso significa, opressão). O espaço público sempre foi o asfalto que nos conecta aos lugares onde podemos consumir, não há muito o que fazer num espaço onde não possamos exercer nossos direitos.

Enxergando pelo microscópio da esfera privada, também nunca entendemos bem para que serve o direito público e a vida partilhada em sociedade. As eleições, perdidas ou ganhas, nunca impactaram no universo pequeno burguês de nossa geração. Com a exceção do incômodo em pagar altos impostos para a estruturação (não reivindicada por nós) de um sistema que, entra ano, sai ano, troca seis por meia dúzia e nos parece sempre igual. Pelo menos, graças a ótica neoliberal, não dependemos da qualidade da vida pública.

À nossa maneira, assim como nossos pais, tomamos posse do que é nosso, não por direito, por méritos. Não fizemos carreira em uma única empresa, como eles, mas em várias. Porque muitos de nós, burgueses da geração Y, temos horror à estagnação e muita dificuldade em lidar com figuras de poder e o autoritarismo das corporações tradicionais. Por isso nos tornamos a nossa própria empresa.

Eis que no trajeto das minhas conquistas, aparecem nas ruas os moleques do MPL com aquele povo baderneiro, atrapalhando o trânsito. Autoritários. Atravessando o meu direito de ir e vir para reclamar de um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus. Ingênuos. Burgueses sem causa, ainda que os tantos centavos lhe fizessem falta, ainda que o protesto tivesse qualquer relevância nas decisões do governo... Nem assim, o espaço público é de todos e com as ruas paradas, a vida em São Paulo fica inviável.

Nada contra o ato de protestar, vivemos numa democracia e o paulistano já está acostumado com isso. Três ou quatro vezes por ano se juntam duzentos lunáticos na Paulista atrapalhando o trânsito. Poderiam utilizar o Sambódromo, já que ele fica vazio de março à janeiro, e todos teríamos nossos direitos garantidos. Porque este mês foi difícil, todo os dias não há quem aguente.

Quinhentas pessoas é uma coisa, cinco mil tornam tudo inviável. E para piorar, a mim e a tantos outros burgueses da geração Y, esses jovens nas ruas pareciam ser de uma fragilidade política sem precedentes e, muito provavelmente, massa de manobra de forças ocultas. Varrem as ruas depredando bancos e patrimônios públicos por nada, como se o uso da violência resolvesse qualquer coisa. Somos contra a violência, mas nessas horas concordamos que as ações da polícia são necessárias para garantir os direitos de ir e vir de todos com segurança.

Só que para tirar as pessoas das ruas e garantir nossos direitos, a polícia, paga com o nosso salário, veio com cacetetes e tiros pra cima de gente que não estava protestando contra o aumento de ônibus. De gente que nem anda de ônibus, que só estava atravessando a rua. A polícia bateu nos jornalistas que estavam lá apenas para documentar os atos de vandalismos. Ficamos horrorizados. E quando fomos tomar satisfação com o governador, a pessoa que elegemos para garantir pelo menos que os direitos do mundo privado sejam preservados, diz que é isso, mesmo. Que ele respeita o cidadão e é assim que se garante o direito de ir e vir das pessoas.

Nada fazia sentido e as certezas desapareceram como gás lacrimogênio, o gás que rasgou nossas gargantas e nos deixou meio confusos. Então estamos todos desprotegidos nas mãos do Estado, mesmo nós, o burgueses da geração Y. Deu nos jornais que muitos moleques do MPL, alguns tão burgueses quanto nós, foram presos por porte de vinagre. Ficamos primeiro com medo e depois indignados porque, há pouco no jantar, foi com vinagre que temperamos a salada. E na reação em cadeia dos esclarecimentos, depois do impulso de protestar contra a proibição do vinagre, refletimos que se formos às ruas, corremos o risco de voltar sem um olho.

Por isso agradeço aos moleques do MPL que me mostraram aquilo que era óbvio para todos que vivem fora da esfera privada, a opressão do Estado existe. E existe justamente para garantir que os que vivem e se aventuram a botar os pés fora da esfera privada não a perturbem. Fora dela, nossos direitos não estão garantidos, mesmo que estejamos pagando caro por eles e isto é um absurdo. Ora, somos nós que sustentamos a polícia e, se nem os nossos superiores nos levantam a voz, não será o Estado que virá pra cima da nossa gente com atitude autoritárias.

Veja que ironia, nos juntamos às ruas ao MPL contra o abuso da polícia e nos surpreendemos com a quantidade de burgueses que, como nós, também estavam lá. Não apenas em São Paulo, por todo o país, juntos com os moleques que protestavam contra o aumento da tarifa do ônibus. E naquele momento as causas eram maiores que os vinte centavos, estávamos nas ruas para lutar pelos nossos direitos de cidadãos, mas a verdade é que não sabemos exatamente que direitos são estes.

Lembrei das aulas de literatura, eu achava que os Fabianos à procura das palavras para combater soldados amarelos eram os famintos, os sedentos. Eis que nós, os burgueses da geração Y, nos descobrimos sem palavras e sem fome de nada. Porque todas as nossas necessidades e desejos foram sanados pelo consumo das coisas e todas as coisas serão acessíveis, é preciso apenas trabalhar com dedicação. Nossas causas públicas não vão muito além da insatisfação aos altos impostos e seus prováveis desvios, porque como na esfera privada, causas só aparecem na vivência das situações, e a rua sempre foi o asfalto que liga os espaços privados.

Tenho que admitir que nas ruas, com a voz daqueles moleques, descobrimos os gritos de indignação. Não estávamos lá pelas causas deles, mas na ausência das nossas, emprestamos as suas palavras. E na medida que o horror da repressão saia de nossas bocas, estávamos confusos em pensamentos desarticulados. Descobrindo as palavras, de nossa boca saiam sons que ora clamavam por libertação, ora reproduziam a opressão. E passamos a suspeitar que a repressão e o autoritarismo também estão em nós. Estamos confusos e de verdade, não sabemos exatamente de que lado queremos estar. Porque a liberdade e os direitos daqueles moleques significam o distúrbio do nosso caminho, ao mesmo tempo que, nas ruas com eles, quase acreditamos na possibilidade de outros mundos, tão melhores e impossíveis, que eu mesmo não ouso imaginar.


Com a beleza daquele corpo imenso de gente no asfalto, pensamos ter experimentado isso que eles chamam da vida partilhada em sociedade. Da pluralidade de classes, tipos e estilos, dos imprevistos, o cheiro de perfume misturado com lixo e o suor, as vontades todas reunidas, contrárias e ao mesmo tempo juntas, à caminho de algo maior e abstrato para além do nosso direito de consumir. Não para os moleques do MPL que acreditam nas causas concretas, mas para nós, burgueses da geração Y. Excitados com as possibilidades, também emprestamos aos moleques algumas palavras, protestamos contra a corrupção e os altos impostos, os sonhos que temos a dividir com eles. Cantamos o hino. Depois vieram dizer que estávamos desvirtuando a causa do aumento, mas ao nosso entendimento, fomos nós que demos à eles a legitimidade de causa. Porque a questão vai muito além dos vinte centavos.

Mais tarde compreendemos que divergimos nos entendimentos do sentido de se manifestar. Se aos moleques do MPL, ir às ruas significa exigir mudanças concretas às condições sociais, para nós protestar é pedir apenas que nos deixem sonhar sem ter que pagar por nada. Porque no nosso mundo, todos os sonhos tem preço e custam mais do que podemos pagar, sonhos que não são nossos. Não esperem mudanças, eu penso a eles, nós sempre soubemos que no mundo neoliberal mudanças não acontecem.

Então, depois de muita pressão o prefeito e o governador concretizam as reivindicações dos moleques do MPL, moleques apoiados por uma massa que dessa vez não se fez apenas dos esfomeados, mas de muitos de nós, burgueses da geração Y, sem causas e palavras. Fomos massa de manobra? Ainda não pensei nas consequências, tenho medo. Medo da possibilidade de que as minhas certezas tenham virado gás lacrimogênio e arranhem a minha respiração. Medo de não saber viver em um mundo de incertezas, que se constrói dos conflitos, na força das vozes coletivas. Eu não sei viver fora do meu umbigo, no meu mundo, basta meu salário e a esperança de que ele seja suficiente para comprar os sonhos mais bonitos. Tenho medo de descobrir que em vez de livres, nós, os burgueses da Geração Y, estejamos presos na imensidão de uma gaiola onde tudo o que o que há é a liberdade para consumir.

Não, não sou ingênuo, também me pergunto da onde virão os R$2,7 bilhões de reais que irão custear essa revogação. Provavelmente virão de outros desvios, aumentos, forças ocultas. As coisas não são tão simples quanto os moleques ingênuos do MPL pensam que é, o sistema é viciado e gira em círculos. O dinheiro da merenda escolar irá para o transporte e em quatro anos virá outro aumento. E os moleques burgueses entenderão que as coisas não são tão simples assim. Eles irão cansar. E tudo o que há, há de permanecer do mesmo jeito.


(Enquanto houver burguesia...)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Que falta faz tua voz doce em tempos de bombas de efeito moral.

domingo, 9 de junho de 2013

Enfim, tornei-me homem.
Falta ser um homem bom.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Nevermore

A mais bela das palavras, Poe
Contém a vida
Ela pulsa entre o sempre e o nunca mais.

O lugar inacessível com que sonham os vampiros
A condição de ser finito na angústia dos mortais. 
O dom do tempo
O som do vento a desfiar a vida no fiar da vida
Nos desatando
Desatando nós

Nevermore
Selo nas pontas dos momentos
O aval ao esquecimento
Depois de tudo, o nada
Para sermos outros
Para o movimento
Para sempre o novo 
Para nunca mais.









domingo, 19 de agosto de 2012

Ciranda

Viva a dança dos amantes, dos amáveis, dos pulsantes
E a troca dos pares, dos pedaços, dos espelhos
A mistura das nossas deformações.



sábado, 4 de agosto de 2012

Os sonhos já saiam da boca desfeitos, hoje sonho com slogans e frases de efeito.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

No mundo dos zumbis

O que pulsa assusta.
O que poderá haver de ti se recusarem tua contradição?
Sombras só não existem no escuro.
De que vale o perdão no exílio?

Babe



Se os hipócritas te pintam de louco, babe!

Babe, tens razão,
O problema não em ti,
Mal jazz aqui fora
Fora de Dogville.

Tua puteza jegue imaculada, 
Bode ir dormir só cegada!