quarta-feira, 27 de junho de 2012

No mundo dos zumbis

O que pulsa assusta.
O que poderá existir de ti se renegares a tua contradição?
Sombras só não existem no escuro.
De que vale o perdão no exílio?

Babe



Se os hipócritas te pintam de louco, babe!

Babe, tens razão,
O problema não tá em ti,
Mal jazz aqui fora
Fora de Dogville.

Tua puteza jegue imaculada, 
Bode ir dormir só cegada!

sábado, 24 de março de 2012

Na fonte

Ao teu lado, a solidão. A sensação de estar longe de casa, à espera de um ônibus que não vai passar. Não chega a doer, embora me entristeça teu abandono. Olho à volta e noto que conheço este ponto: é o deserto em que vacilo, toda vez que faço da vida a espera. Mas há algo de novo.

Há uma solidão ciente de si, a minha presença no conto. Cai em pé e não ouso sentar, qual sentido? Estou aqui num corpo com pernas, Godot desperto, inquieto. Há essa consciência do movimento, da potência, dos desejos, a necessidade de ir. A alegria incontida do recém-descoberto, este estar de passagem ganhando os dias, sem medo de perder nos desencontros, deliciosamente perdido no mistério das possibilidades.

Me sinto encontrado no vazio em mim, faminto de beleza, excitado pelas conquistas vindas de meu movimento. A tristeza pela tua ausência quase me faz esquecer que de fato tenho sorrido muito e suado para caminhar. Digo sim à vida que vem se tecendo com meus passos, sou bobo de negá-la? Em minha mão descubro uma rosa, e o deserto queimando, um desperdício. "Não pude ficar, fui à pé procurar água."

sábado, 25 de fevereiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Circo

Bebia cerveja e falava groselhas. Numa mão o copo colado e a outra equilibrava a máscara, que escorria no suor do esforço. Lantejoulas pingando, sorriso pregado no rosto e o fardo da euforia.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Na janela

A velha da janela não teve forças para ir ao parapeito. Embrulhada na cama, pestanejou e então sentiu a consciência descolar da carne. Assustada, temeu fechar os olhos para sempre. A existência sussurava por relaxamento e deixar-se levar parecia ser o maior prazer que a vida tinha a oferecer. De novo e mais um susto, entendeu que era isso mesmo. Pensou ser uma pena ter ninguém a presenciar o momento tão raro, olhou para a janela e se despediu da moldura. De olhos fechados reviu todo o que passou, mas não se viu porque tudo que ela fez foi observar. E naqueles instantes, era como se ela fosse apenas o tempo, os olhos do tempo a reprisar a vida que desfilou por aquela janela. Antes de morrer pensou que era mesmo uma pena, sorriu engraçada e dissolveu-se pra nunca mais voltar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Entrega

Maiores não sabem mais amar como os meninos, amores mesquinhos tem preço e estão pela hora da morte. Amoras sabor desamor aos amantes absortos na falta. Carícias frias, sorrisos ocos, afetos de má formação. A cada lua um aborto, amor nenhum vinga nos corpos cheios de si, amor nenhum fica.

Cisto

O que eu faço contigo, serzinho? Pequeno franzino, verde-musgo-mesquinho, pele, osso e veneno, fica aqui corroendo toda luz que ameaça nascer. Que é que eu faço contigo, serzinho? A azedar o caminho, adoecer o amor, desamar o hospedeiro. Quer encolhê-lo ao teu tamanho, vesti-lo e fazer o que com isso? Como é que eu te desarmo, te esqueço, extirpo? Você precisa morrer.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

silêncio

No olho do furacão quis descrever a vista no centro do nada. E o espetáculo dos pensamentos loucos, delírios soltos, em revoada circular. Quando restei em solo quis dizer do horizonte torto, das raízes expostas, campos e campos de solidão e o frio sem fim. E eram tantas palavras que pouco ou nada diziam do que em mim acontecia, tive sabedoria de me manter calado. E calado segurei.